Não queria pensar, queria sentir. Peguei a tela, a tinta a óleo, as cores, e comecei com vermelho misturado ao preto. Era como se eu estivesse preparando um terreno espesso, denso e um pouco pesado, um fundo que carregava tudo o que eu não conseguia dizer em palavras; raiva, cansaço, angústia, a depressão que me acompanha, mas também uma força contida. Era meu chão. Um chão escuro, mas firme.
Da metade para cima, deixei o vermelho encontrar o amarelo mais escuro. Senti que algo em mim queria subir, queria mudar. A mistura começou a ganhar outra temperatura, outra energia. Ainda não era luz, mas era transição. Era desejo.
A espátula veio como um impulso. Eu nem pensei. Só fui. Apliquei as manchas como quem respira fundo depois de muito tempo preso. Cada movimento era um desabafo. Cada textura, uma faísca. Um reflexo da minha impulsividade, das emoções que me arrastam, do que às vezes não consigo controlar. E de repente, ali estava o fogo.
Não um fogo que destrói. Era o fogo que eu precisava, o que transforma, o que anuncia que ainda há vida. Essa pintura é isso; um pedaço de mim que ardeu, que carrega tanto a sombra da depressão quanto a energia da vontade de seguir.
As marcas da espátula são, para mim, uma forma de escrita. A cada rastro de tinta é uma palavra silenciosa, uma marca que fala de memórias e sensações. Assim como na escrita, a pintura me permite dizer o que não sei explicar, dar corpo ao invisível, revelar impulsos, sombras e emoções, e deixar o que sinto ganhar textura.
Criei esta obra durante um processo de escuta e presença. É parte de uma busca constante por transformar o que vivi, a intensidade, a vulnerabilidade, a luta diária, em algo que possa ser sentido, uma poesia feita de cor e matéria.
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