Eu olho para essa tela e não vejo só cores. Vejo o som abafado dos dias que não consigo explicar.
As texturas ásperas, densas, quase agressivas, são como os pensamentos que não param, que insistem, que corroem. Ninguém os vê, mas eles estão ali, espessos, cravados em mim como essas camadas de tinta.
A parte de cima brilha, mas não é leveza. É o brilho falso de um sorriso ensaiado, como quando me pedem para parecer bem. Um azul que parece gritar, mesmo sem emitir som.
Intenso demais. Vivo demais. Eu não sou isso, mas às vezes me esforço para ser, por medo de parecer errada, diferente demais.
No meio, um roxo sombrio. Um lugar entre a escuridão e a pretensão de existir. É o espaço onde eu passo a maior parte do tempo. Nem tristeza clara, nem alegria possível. Só um cansaço roxo. Um lugar espesso, onde minha mente fica presa.
Mais abaixo, o roxo se alisa um pouco, como se tentasse se acalmar. Mas não consegue. Há rachaduras, marcas, falhas. Tento controlar minhas palavras, meu tom de voz. Tento existir sem atrapalhar. Mas essa parte da pintura me lembra: mesmo o que parece calmo pode estar em frangalhos por dentro.
E lá embaixo, no limite da tela, o azul volta. Mais frio, mais duro. Como a base de tudo. A tristeza que me sustenta quando o resto desmorona. A solidão que parece segura, porque é familiar.
Porque é minha.
Essa tela sou eu. Ou pelo menos é o que me sinto quando não consigo mais fingir. Quando a textura da vida me fere, me irrita, me cansa. E tudo que quero é ficar num canto, sem precisar explicar por que até as cores me doem.
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